Desculpem-me caso esta lição tenha muitos trechos bastante longos, mas como eu disse, meu curso é baseado no livro e neste capítulo Sofia recebe uma carta importante, que deve ser posta em discussão por inteira.
"... a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos é a capacidade de nos admirarmos com as coisas..."
" Na escola, Sofia tinha dificuldade de se concentrar no que o professor falava. De uma hora para a outra, começou a achar que ele só falava de coisas que não eram importantes. Por que ele não falava sobre o que é um ser humano, ou então sobre o que é o mundo ou de onde tinha surgido?
Ela sentia uma coisa que nunca tinha sentido antes: na escola, e também por toda a parte, as pessoas só se preocupavam com trivialidades. Mas havia questões maiores, mais graves, cujas respostas eram mais importantes do que as matérias normais da escola.[...] Por que será que era tão difícil preocupar-se com estas questões tão importantes e, de certa forma, tão naturais?"
Imagino que a maior parte daqueles que leem o NossoCaffeLatte até agora nunca pensaram do mesmo modo que a Sofia... Mas acreditem, eu já. Numas aulas quaisquer já olhei para o professor com um sentimento de total tédio, acreditando fervorosamente que saber sobre relevo, ecologia ou fonética nunca, em nenhum local, de nenhuma época, seria tão importante quanto procurar saber de onde veio o mundo...
Me perdoem, caso estejam lendo isso agora, não deixo de reconhecer a importância de cada matéria, mas também discordo totalmente do desrespeito que muitas pessoas têm pela filosofia, inclusive o fato de que o Instituto não mantém essa aula em todos os anos letivos. Como podem ensinar o aspecto biológico, químico e social de um ser humano sem pensar de onde viemos?! Isso é um absurdo...
" No envelope havia três páginas datilografadas, presas por um clipe. Sofia começou a ler.
O QUE É FILOSOFIA?
Querida Sofia,
Muitas pessoas têm hobbies diferentes. Algumas colecionam moedas e selos antigos, outras gostam de trabalhos manuais, outros gostam de romances, outros ainda preferem livros sobre temas diversos como astronomia, a vida dos animais ou as novas descobertas da tecnologia.
Se me interesso por cavalos ou pedras preciosas, não posso querer que todos os outros tenham o mesmo interesse. Se fico grudado na televisão assistindo a todas as transmissões de esporte, tenho que aceitar que outras pessoas achem o esporte uma chatice.
Mas será que existe alguma coisa que interessa a todos? Será que existe alguma coisa que concerne a todos, não importando quem são ou onde se encontram? Sim, querida Sofia, existem questões que deveriam interessar a todas as pessoas. E é sobre tais questões que trata este curso.[...]"
Por que deveriam todos se interessar pela filosofia? Pois estas questões tratadas pela filosofia são aquelas únicas que nem religião nem ciência podem dar uma explicação absoluta. São perguntas que continuam sem respostas desde o dia em que foram feitas e, se estou certo nas minhas próprias crenças, devem ter sido feitas desde que o homem é homem.
"[...] Qual a coisa mais importante da vida? Se fazemos esta pergunta a uma pessoa de um país assolado pela fome, a resposta será: a comida. Se fazemos a mesma pergunta a quem está morrendo de frio, então a resposta será: o calor. E quando perguntamos a alguém que se sente sozinho e isolado, então certamente a resposta será: a companhia de outras pessoas.
Mas, uma vez satisfeitas todas essas necessidades, será que ainda resta alguma coisa de que todo mundo precise? Os filósofos acham que sim. Eles acham que o ser humano não vive apenas de pão. É claro que todo mundo precisa comer. E precisa também de amor e de cuidado. Mas ainda há uma coisa de que todos nós precisamos. Nós temos a necessidade de descobrir quem somos e por que vivemos.
Portanto, interessar-se em saber por que vivemos não é um interesse "casual" como colecionar selos, por exemplo. Quem se interessa por tais questões toca um problema que vem sendo discutida pelo homem praticamente desde quando passamos a habitar este planeta. A questão de saber como surgiu o universo, a Terra e a vida por aqui é uma questão maior e mais importante do que saber quem ganhou mais medalhas de ouro nos últimos jogos Olímpicos."
Não é que eu não ligue para aos Jogos Olímpicos ou a Copa, mas eu padeço de um grande tédio ao tentar acompanhar uma partida de qualquer que seja o esporte. Poucas são as exceções. Não é para pensar no universo, no entanto, que eu deixo de assistir uma partida da Libertadores. Mas simplesmente eu acredito que perder algumas horas do meu dia não seria saudável para minha rotina, principalmente para ver um jogo.
Eu tenho hobbies, lógico. Todos têm, mesmo que não se deem conta disso. Os meus, no entanto são um pouco mais úteis para o que eu quero. O próprio NossoCaffeLatte é um dos meus hobbies. E não deixo nenhum deles de lado para filosofar, simplesmente utilizo aqueles minutos de ócio para pensar em coisas que não pensaria durante o rush do dia a dia.
" O melhor meio de se aproximar da filosofia é fazer perguntas filosóficas:
Como o mundo foi criado? Será que existe uma vontade ou um sentido por detrás do que ocorre? Há vida depois da morte? Como podemos responder a estas perguntas? E, principalmente: como devemos viver?[...] Não dá para procurar numa enciclopédia se existe um Deus, ou se há vida após a morte. A enciclopédia também não nos diz como devemos viver. mas a leitura do que outras pessoas pensaram pode nos ser útil quando precisamos construir nossa própria imagem do mundo e da vida."
Já ouvi mais de uma pessoa dizer que a filosofia era inútil... Grande erro. Eles já não se surpreendem com o universo, não se questionam mais, aceitaram o mundo como ele é. Para eles, as reflexões de alguns homens velhos de outros tempos não significam nada, não haveria motivo em saber o que os antigos filósofos pensavam se não para formar a própria opinião. Eles não querem mais formar uma opinião, aceitaram a que a sociedade deu a eles.
"[...] É como o que ocorre quando assistimos a um truque de mágica: não conseguimos entender como é possível acontecer aquilo que estamos vendo diante de nossos olhos. E então, depois de assistirmos à apresentação, nos perguntamos: como é que o mágico conseguiu transformar dois lenços de seda brancos num coelhinho vivo?
Para muitas pessoas, o mundo é tão incompreensível quanto o coelhinho que um mágico tira de uma cartola que, há poucos instantes, estava vazia.
No caso do coelhinho, sabemos perfeitamente que o mágico nos iludiu. Quando falamos sobre o mundo, as coisas são um pouco diferentes. Sabemos que o mundo não é mentira ou ilusão, pois estamos vivendo nele, somos parte dele. No fundo, somos o coelhinho branco que é tirado da cartola. A única diferença entre nós e o coelhinho branco é que o coelhinho não sabe que está participando de um truque de mágica. Conosco é diferente. Sabemos que estamos fazendo parte de algo misterioso e gostaríamos de poder explicar como funciona."
Essa consciência é o que difere o homem dos animais, pois nós estamos cientes da nossa existência, enquanto os animais não. Se fôssemos diferentes apenas pela inteligência, por sermos racionais, então continuaríamos sendo apenas animais, embora possuidores de uma carta na manga. Mas esta razão nos dá a plena capacidade de examinar o mundo e compreendê-lo, mesmo que não por inteiro.
"Eu já disse que a capacidade de nos admirarmos com as coisas é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos? Se não, então digo agora: A ÚNICA COISA DE QUE PRECISAMOS PARA NOS TORNARMOS BONS FILÓSOFOS É A CAPACIDADE DE NOS ADMIRARMOS COM AS COISAS...
Todo mundo sabe que os bebês possuem essa capacidade. Depois de alguns meses na barriga da mãe, eles são empurrados para uma realidade completamente diferente. Mas depois, quando crescem, parece que esta capacidade vai desaparecendo. Como se explica isto? Será que Sofia Amundsen é capaz de responder a esta pergunta?
Vamos ver: se um bebezinho pudesse falar, na certa ele diria alguma coisa sobre o novo e estranho mundo a que chegou. Pois apesar de a criança não saber falar, podemos ver como ela olha ao redor e quer tocar com curiosidade todos os objetos que vê.
Quando vêm as primeiras palavras, a criança pára e diz "Au! Au!" toda vez que vê um cachorro. Podemos ver como ela fica agitada dentro do carrinho e movimenta os bracinhos dizendo "Au, au, au!". Para nós, que já deixamos para trás alguns anos de nossas vidas, o entusiasmo da criança pode parecer até um tanto exagerado. "Sim, sim, é um au-au", dizemos nós os "vividos". "Mas agora fique quietinho." Não ficamos muito entusiasmados, pois já vimos outros cachorros antes."Essa cena é a pura verdade... Quando a criança reage ao novo mundo, agitando-se, aqueles que estão em volta não entendem o que ela está pensando dentro daquela cabecinha e a fazem aquietar-se. Esse gesto, feito repetidas vezes, vai reduzindo o entusiasmo da criança até que ele desapareça.
É a sociedade impedindo o nascimento de um novo filósofo, infelizmente.
" Certa manhã, mamãe, papai e o pequeno Thomas - a esta altura já com dois ou três anos - estão sentados na cozinha tomando o café. De repente, mamãe se levanta, vira-se para a pia e então... bem, então papai começa a flutuar sob o teto da cozinha.
O que você acha que Thomas diria? Talvez ele apontasse o dedo para o pai e dissesse: "Papai voando!".
Na certa Thomas ficaria espantado, mas ficar espantado não é novidade para ele. Afinal, o papai faz tantas coisas estranhas que, a seus olhos, um pequeno voo sobre a mesa do café da manhã não faz lá muita diferença. Todos os dias, por exemplo, sei pai faz a barba com um aparelhinho esquisito, às vezes sobre no telhado e vira a antena da TV, outras vezes enfia a cabeça no compartimento do motor do carro e sai com a cara toda preta lá de dentro.
Agora é a vez da mamãe. Ela ouviu o que Thomas disse e vira-se resoluta. Como você acha que ela reagiria à visão de seu marido voando sobre a mesa da cozinha?"
Posso usar um exemplo ainda melhor que o pai do pequeno Thomas. Acredito que já ouviram falar no Criss Angel, o ilusionista.
Como acham que ele consegue flutuar no meio da rua, sem nada em volta? Não há cabos, panos ou quaisquer equipamentos. A maior parte das pessoas pensa: "Uau! Isso é loucura!" ou "É um truque!", eu, me desculpem, simplesmente penso que gostaria muito de fazer aquilo... Quando alguém vê o Ilusionista fazer aquelas loucuras, fica estupefata, principalmente por não poder explicar como ele faz isso. Não se pode acreditar que foi um truque como o do coelho e a cartola, pois é muito mais real, acontece na sua frente. Sua reação define se já se habituou ao mundo e acredita fervorosamente que é um truque, ou se não se habitou e pensa como aprender a driblar também as leis da física para criar o mesmo efeito.
"[...] Por diferentes motivos, a maioria delas é tão absorvida pelo cotidiano que a admiração pela vida acaba sendo completamente reprimida.[...] Para as crianças, o mundo - e tudo o que há nele - é uma coisa nova; algo que desperta a admiração. Nem todos os adultos veem a coisa dessa forma. A maioria deles vivencia o mundo como uma coisa absolutamente normal.
E precisamente neste ponto é que os filósofos constituem uma louvável exceção. Um filósofo nunca pe capaz de se habituar completamente com este mundo. Para ele ou para ela o mundo continua a ter algo de incompreensível, algo até de enigmático, de secreto.[...]"
A apatia da não admiração pelo mundo é algo terrível... Não consigo imaginar-me vivendo sem a capacidade de me surpreender com a beleza duma gota de orvalho nos girassóis do meu quintal, ou das borboletas pretas, amarelas e amarelas e pretas que voam sobre mim enquanto escrevo sobre a sombra do meu coqueiro anão
Não acho que cheguei na ponta do pêlo do coelho, pelo contrário, acho que estou longe disso, mas acredito que estou indo em direção a ela, lenta e inexoravelmente. Tenho certeza disso pois para mim o mundo ainda é um grande enigma, um que eu quero muito resolver.
" Vamos resumir: um coelho branco é tirado de dentro de uma cartola. E porque se trata de um coelho muito grande, este truque leva bilhões de anos para acontecer. Todas as crianças nascem bem na ponta dos finos pêlos do coelho. Por isso elas conseguem se encantar com a impossibilidade do número de mágica a que assistem. Mas conforme vão envelhecendo, elas vão se arrastando cada vez mais para o interior da pelagem do coelho. E ficam por lá. Lá embaixo é tão confortável que elas não ousam mais subir até a ponta dos finos pêlos, lá em cima. Só os filósofos têm ousadia para se lançar nesta jornada rumo aos limites da linguagem e da existência. Alguns deles não chegam nem a concluí-la, mas outros se agarram com força nos pêlos do coelho e berram para as pessoas que estão lá embaixo, no conforto da pelagem, enchendo a barriga de comida e bebida:
- Senhoras e senhores - gritam eles -, estamos flutuando no espaço!
Mas nenhuma das pessoas lá de baixo se interessa pela gritaria dos filósofos.[...]"
Créditos: Cromwell


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