sábado, 2 de outubro de 2010

Convivendo com A Morte - Por LehCullen

Estive a ler o NyahFanFicitions e encontrei uma série de contos muito legais, baseados, pura e simplesmente, em situações envolvendo a morte. Não são exatamente histórias de terror, mas ainda assim eu gostei. Convivendo com a Morte, Contos Originais por LehCullen. Trouxe o primeiro conto, só pra deixar um petisco.

Conto I
  Era quase meia noite enquanto ela andava pela rua deserta. Ela não sentia medo, se orgulhava por ser alguém destemida. Julgava-se a única mulher corajosa que conhecia.
  A lua brilhava imponente no céu, centralizada e, mas brilhante do que nunca. Não havia nenhuma nuvem no céu para encobrir as estrelas que eram ofuscadas pelo brilho do luar.
  Seria uma noite bela, admirável até, não fosse pelo fato de tudo estar calmo demais. Era comum em cidades como aquela, ouvir sons de música, conversas, carros passando, animais latindo, miando. Mas não naquela noite, algo estava diferente.
O mundo parecia querer alertar-lhe de que aquela não era uma noite propicia as suas caminhadas noturnas e costumeiras.
O silencio pairava pela rua vazia, deserta. Então um pio de coruja soou distante e agourento, como um aviso de que ela deveria refugiar-se, mas ela não ouvia aos avisos, nunca.
Pingos grossos de chuva começaram a cair, ela não se acolheu, continuou andando. O chuvisco fazia seus cabelos soltos grudarem em sua face e em seu pescoço. Sua blusa de seda fina e branca moldava-se em seu corpo.
O vento gélido fez com que todo o seu corpo se arrepiasse.
Ouviu passos atrás de si. Era uma caminhada lenta, não humana. Er o som de patas tocando o chão, uma de cada vez. Ouviu uma respiração rouca, que lançou de encontro a sua nuca, algo tão frio quanto à própria morte, sentiu todos os seus músculos retesarem-se.
Seu corpo lhe avisou, dizia que ela deveria ter medo, mas ‘ela’ não lhe dava atenção, seguiu em frente.
Ouviu o que quer que seja que estava atrás de si farejar, o vento trazia algo ao alcance de seu olfato e então um rosnado frio e grotesco preencheu aquele silencio eterno.
O animal, um cão enorme -negro e de aparência selvagem, com patas do tamanho de uma mão masculina, humana- tomou impulso e avançou, o seu instinto de preservação desta vez foi mais forte e suas pernas tomaram vida, avançando rapidamente de encontro ao nada, ela corria como se a sua vida dependesse do ato. Logo o animal a avançou, tomando a frente.
Ela parou com as mãos nos joelhos, ofegante. O que havia sido aquilo? Tudo indicava que ela era a presa! Primeiro ela era seguida de perto pelo animal, depois o rosnado, a corrida e então... Ele a esquece ali, de encontro à outra coisa qualquer.
Sua curiosidade foi além e então ela correm na direção em que o grande cão havia sumido.
A todo o momento ela olhava para os lados, procurando. Sua mente lhe avisava que o que quer que seja que estava acontecendo, seria algo que ela não gostaria de presenciar.
Por um momento ela ponderou, discutindo consigo mesma se ela continuaria adiante.
Ela decidiu que sim, quando um grito de horror quebrou o silencio que novamente havia se instalado naquela rua.
Ela correu em direção ao grito. Seu coração martelava em seu peito a cada passada mais rápido, bombeando a adrenalina diretamente em suas veias, fazendo com que ela corresse mais rápido.
Então ela parou.
A cena que se seguia era algo que ela nunca pensou em presenciar em sua vida, e então ela sentiu o verdadeiro medo. Ela se julgava forte e corajosa o suficiente, mas nada do que ela havia visto antes em sua vida a preparou para aquilo.
Em uma encruzilhada, aquele cão negro e enorme estraçalhava algo, alguém, uma mulher.
Ele chacoalhava a cabeça desmembrando o corpo feminino ali caído. Ela podia ver que a mulher ainda vivia seu peito se movia cada vez mais lento.
O sangue transformava o asfalto em um rio medonho, escorria pela leve inclinação da rua, levando o sangue até os seus pés, ela desviou enojada.
O mutilamento continuou. Pernas e braços arrancados com brutal e cruelmente.
O animal levantou a cabeça e olhou em sua direção com os dentes arreganhados e banhados de sangue, os pelos de sua costa estavam eriçados, os olhos... Aqueles deviam ser os mesmos olhos que o demônio tinha, vermelhos e cruéis. Mais vermelhos do que o sangue que jorrava de sua vitima, a pobre e indefesa mulher, que estava ali caída, lutando pela sua vida que estava acabada, agarrando-se a qualquer oportunidade que ela tinha de viver. Então os olhos do animal lampejaram com algo e ele correu sumindo de vista.
Quando sentiu que estava segura ela avançou em passos lentos em direção à mulher, cada passo era uma eternidade.
A mulher estava toda desmembrada, a única parte intacta, limpa e livre de sangue e de qualquer outro arranhão, era o seu rosto.
Ela relutou em olhar para o rosto da mulher, mas não podia evitar aquilo e então virou seus olhos para aquele rosto e então viu a si mesa, ali caída, morrendo...
Os mesmo olhos verdes, os mesmos lábios finos, a mesma sobrancelha que lhe dava um ar arrogante.
Aquela mulher caída ali era ela.
E então o cão voltou para o golpe final.
****
Era quase meia noite enquanto ela andava pela rua deserta. Ela não sentia medo, se orgulhava por ser alguém destemida. Julgava-se a única mulher corajosa que conhecia...
Aquela cena repetiu-se por décadas. Ainda se repete.
A forma como ela foi morta é algo que não se pode esquecer. Ela se recusa a acreditar que um dia sentiu medo, e o seu orgulho fez com que uma forte impressão de si mesma perambulasse pelas ruas, noite após noite durante anos vendo a própria morte acontecer diante de seus olhos.
Um dia ela entendeu. Nada pode ser tão corajoso sem ter algo a que se tema... E foi nesse dia que aquela cena teve a sua ultima repetição.
Fim.

Adio, S.C. 

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